Thunderbolts* no Disney+: anti-heróis da Marvel fecham a Fase 5 com estreia no streaming

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Estreia no Disney+ e o peso de um time improvável

US$ 150 milhões no fim de semana de abertura nos cinemas e, agora, estreia no streaming. É com esse fôlego que Thunderbolts*, da Marvel Studios, aterrissa no Disney+ em 27 de agosto de 2025, coroando a reta final da Fase 5 do MCU. O longa, dirigido por Jake Schreier, saiu de uma temporada turbulenta de adiamentos para se firmar como a aposta da Marvel no terreno mais cinzento dos super-heróis: o dos anti-heróis.

A trajetória até aqui não foi simples. O filme estava previsto para 26 de julho de 2024, mas acabou empurrado por greves e conflitos de agenda. A estreia nos cinemas foi realocada para 2 de maio de 2025 e, depois de uma corrida comercial vigorosa, chega ao streaming no fim de agosto — uma janela pensada para manter o interesse do público em alta sem esgotar o fôlego da bilheteria.

O time em campo é tudo menos clássico. Yelena Belova (Florence Pugh), Bucky Barnes (Sebastian Stan), Red Guardian (David Harbour), Ghost (Hannah John-Kamen), Taskmaster (Olga Kurylenko) e John Walker (Wyatt Russell) se veem numa missão montada por Valentina Allegra de Fontaine (Julia Louis-Dreyfus). Eles não partilham um ideal heroico, mas uma coleção de passados complicados e decisões duvidosas. Isso muda o tom: menos grandiloquência, mais espionagem, tensão e dilemas morais.

A premissa é direta e cruel: presos numa armadilha arquitetada por Valentina, os anti-heróis são empurrados para um trabalho que os obriga a encarar o que fizeram e o que se tornaram. Nada de uniformes alinhados e discursos de união; há segredos, desconfiança e a pergunta que move o filme: dá para reescrever a própria história quando o mundo já carimbou você como vilão?

Com 2 horas e 8 minutos, a narrativa prioriza o atrito entre personagens, sem abrir mão de cenas de ação que falam a língua do MCU. Há perseguições, combates corpo a corpo e golpes de inteligência que lembram os capítulos mais “terrestres” da franquia. No Disney+, o longa chega em múltiplos formatos e traz o aviso de cenas com luzes intermitentes — ponto importante para espectadores com sensibilidade a esse tipo de estímulo.

Para quem acompanha a cronologia, o filme funciona como peça de encaixe entre histórias anteriores e o que vem a seguir. Não é uma simples reunião de coadjuvantes: é a tentativa de dar protagonismo a figuras que ficaram, por anos, entre o heroísmo e o oportunismo.

Bastidores turbulentos, mudanças de elenco e o lugar de Thunderbolts* no MCU

Bastidores turbulentos, mudanças de elenco e o lugar de Thunderbolts* no MCU

O caminho de produção teve de tudo. As greves na indústria e agendas conflitantes atravessaram o cronograma, derrubando a data original e obrigando a Marvel a reorganizar prioridades. Nesse rearranjo, houve baixas e substituições. Steven Yeun deixou o projeto; Lewis Pullman entrou para viver o Sentry. Ayo Edebiri saiu por causa dos atrasos; Geraldine Viswanathan assumiu a personagem Mel. Nenhuma mudança foi pequena: cada troca exigiu ajuste de roteiro e de dinâmica entre os atores.

Falando em roteiro, Joanna Calo somou forças ao texto de Eric Pearson durante a produção, refinando arcos e redistribuindo peso dramático. Essa reescrita no meio do jogo explica por que o filme investe tanto na química — ou na falta dela — do grupo. O objetivo parece claro: menos cena expositiva, mais conflito direto, com humor seco e sarcasmo em vez de punchlines fáceis.

Na trilha, a assinatura é do Son Lux, gravada em fevereiro de 2025 no Abbey Road Studios, em Londres. A escolha casa com a proposta: uma sonoridade que mistura pulsos eletrônicos e texturas mais orgânicas, marcando as viradas de tensão sem soar genérica. A música em Thunderbolts* funciona como cola entre personagens que não querem colar.

O elenco principal reúne peças que o público já conhece, agora sob outra luz. E ajuda lembrar de onde cada um vem:

  • Yelena Belova (Florence Pugh) — apresentada em Viúva Negra e vista em Gavião Arqueiro; carisma afiado e um senso de justiça nada ortodoxo.
  • Bucky Barnes (Sebastian Stan) — o Soldado Invernal tenta virar a página desde Capitão América e Falcão e o Soldado Invernal; aqui, encara o peso de liderar sem querer.
  • Red Guardian (David Harbour) — relicário soviético de força bruta e orgulho ferido; vira e mexe usa o humor como armadura.
  • Ghost (Hannah John-Kamen) — vinda de Homem-Formiga e a Vespa, é instável e estratégica, com um passado que não cabe em rótulos fáceis.
  • Taskmaster (Olga Kurylenko) — lutadora que mimetiza estilos; o conflito interno define cada movimento.
  • John Walker (Wyatt Russell) — o “quase Capitão América” de Falcão e o Soldado Invernal, ainda às voltas com honra, status e limites.
  • Valentina Allegra de Fontaine (Julia Louis-Dreyfus) — arquiteta das peças, prefere influenciar nos bastidores e medir pessoas como se fossem recursos.

Esse desenho aponta para algo que a Marvel vem tentando desde a Fase 4: diversificar tons e estruturas sem perder a continuidade. Thunderbolts* não busca repetir a fórmula dos Vingadores. Ele investe em operações táticas, decisões ambíguas e consequências pessoais. Onde os Vingadores salvavam o mundo de ameaças cósmicas, os Thunderbolts lidam com sujeira de baixo impacto aparente, mas alto custo moral.

Na prática, isso muda o ritmo. As cenas são mais contidas, a violência é mais próxima do chão, e o foco recai nas fissuras: quem confia em quem, quem mente, quem segura a barra quando a missão degringola. A câmera acompanha mais de perto as reações e menos os grandes quadros épicos. Esse desenho faz sentido para um grupo que não foi treinado para ser família e, sim, para sobreviver.

Os bastidores contam, também, uma história de sobrevivência. As mudanças de elenco — Pullman entrando como Sentry e Viswanathan assumindo Mel — não são notas de rodapé. Elas interferem na química entre atores e exigem ajustes finos na direção de Schreier. O resultado é um filme que abraça o improviso como textura: personagens reagem, mudam de plano, recuam e avançam sem o conforto de um manual heroico.

Encerrar a Fase 5 com esse time é um gesto calculado. Depois de anos em que a Marvel foi cobrada por apostar em esquemas repetidos, Thunderbolts* sinaliza uma disposição de risco. Não é o risco de desmontar o MCU, mas de dizer que o universo também comporta gente quebrada tentando fazer o certo por motivos errados — ou o contrário.

Para o público do streaming, o lançamento no fim de agosto ajuda a manter o calendário da Marvel visível entre uma leva e outra de estreias. E dá a chance de rever com calma escolhas de personagem, pequenos símbolos e pistas plantadas para o que vem depois. Sem spoilers: há espaço para continuação, e a presença de Valentina não é gratuita.

Pelos números, a aposta inicial se pagou: abrir com US$ 150 milhões no mundo em um momento de competição pesada por atenção não é trivial. Mas o dado mais relevante aqui não é só a bilheteria; é a capacidade de criar um grupo que funcione fora da sombra dos Vingadores. Thunderbolts* aponta um caminho em que o MCU pode girar histórias de escala média, com tensão e personalidade, sem depender de eventos que derrubem o céu.

Se você chega por causa da ação, ela está lá. Se vem pela curiosidade de ver como figuras “problemáticas” dividem o mesmo campo, melhor ainda. A graça é observar como cada passado pesa numa decisão de hoje. Às vezes, basta uma ordem de Valentina para tudo desandar. Às vezes, é justamente o caos que salva a missão.